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domingo, 16 de julho de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - I - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Seria necessário o rompimento do céu para que voltássemos a ser felizes, a reversão do mundo a Eva e Adão. 
Entretanto, somos unidos pelas serpentes, facto que não é coisa pouca.     
O fruto do pecado estala-nos os estômagos quando nos aproximamos da unidade e ainda assim é fundamental persistir na visão das coisas apenas na sua transparência. Essa é uma necessidade básica, ser a vida voada perto da velocidade extrema. 
A minha filha diz-me ver os antepassados e que haverá um tempo em que todos seremos juntos. Nada como a sabedoria das crianças, inteligentes como pequenos deuses.
Contudo, os homens tornaram-se bestas de grande porte, estultos como todo o lixo que nos cerca. Espero que, no mínimo, haja uma purgação, que do lixo que aqui somos nada reste.  
Nunca nada me tocou, nada excepto as intempéries. Espero assim não ser junto à podridão, que Caronte, filho da Noite, continue reinando sobre as águas e que mesmo após a morte os rios permaneçam dividindo os mundos. Que as águas impeçam a estupidez de nos colar os espíritos. Que nenhuma vã moeda sirva para pagar o trajeto. Que seja fundamental transportarmos algum ouro junto a nossos corações e seja essa a única moeda de troca.  
Cruzamo-nos, como barcos sem destino, como se aguardássemos a voz do timoneiro. 
O futuro é agora. Sempre foi. 
E cada passo dado em direcção à beleza é mais um tiro tombando a escuridão. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

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