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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre toda a escuridão - III - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Parar de crescer, o primeiro passo. Não permitir que as obrigações sociais nos minem ao ponto de subverter-nos à mera factualidade. Estabelecer o equilíbrio no ponto de equilíbrio e aí permanecer. O primeiro passo. O primeiro passo é dado de encontro ao mundo, de encontro à factualidade do mundo. O primeiro passo consiste em saber que por detrás dos factos existem ideias, que são as ideias que sustentam os factos. 
Por conseguinte, as sociedades são o que são e tal qual são porque alguém as idealizou assim. O primeiro passo consiste em perceber que existe uma realidade natural e uma realidade social. À realidade natural temos que nos adaptar o mais possível, viver em consonância com os factos naturais, o mais possível. Quanto à realidade social, essa é uma realidade que apenas depende de nós, do modo como idealizamos o mundo. É esse o primeiro passo, percebermos que não existem inevitabilidades. As inevitabilidades sociais são falácias que nos pretendem fazer tropeçar, que pretendem fazer-nos cair no engodo da pós-história. Apenas as inevitabilidades naturais são quase irreversíveis. As catástrofes sociais são da nossa inteira responsabilidade. 
Assim sendo, depende de nós tornamo-nos a natureza morta que quisermos ser, frutos apodrecidos até não ter retorno ou o vicejar por entre as chamas.
De qualquer modo, a defesa do capitalismo é algo que resulta da nossa incapacidade para perceber o mundo ou isso ou o facto de sermos gente absolutamente abominável. 

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

1 comentário:

  1. Nem sempre, mas na maior parte das vezes sim, quase sempre.
    Belo texto (aliás como sempre)

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