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domingo, 30 de abril de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXIV

XXXIV

Rui Carvalho: os conceitos de utilidade e inutilidade são conceitos fulcrais à compreensão da sociedade contemporânea e à compreensão do seu modo de funcionamento. O útil e o inútil são estigmas sociais que nos tornam vitimas indefesas da estupidez? 

Void: a utilidade é um conceito “burguês” que surge ou se torna premente logo após a revolução industrial. Útil é tudo aquilo que nos serve o dia a dia. A partir do momento em que nos tornamos escravos do trabalho automático e automatizado tudo aquilo que temos acesso é ao dia a dia. Nada mais, nada menos. O dia a dia não nos sobra tempo. Somos carcomidos pelo dia a dia até nos tornarmos meros cadáveres adiados. Somos gravitados em torno do dia a dia. Gravitados em torno do dia a dia tudo aquilo que nos serve terá necessariamente que servir o dia a dia. Ora o que é isso de servir o dia a dia? 
Servir o dia a dia implica agir como autômato. Todas as nossas “acções” são automatizadas ao ponto de não pensarmos, sequer por um segundo, a razão de ser dos nossos actos. O dia a dia ocupa-nos, e ocupa-nos o tempo todo, o tempo inteiro. No dia a dia é como se já não houvesse tempo, como se tivesse deixado de haver tempo. O dia a dia hipnotiza-nos de tal modo que somos levados a achar que já não há tempo que nos reste, que nos sobre.  
É deste modo que arte se torna a sobra dos dias. Acercamo-nos da arte como alguém se acerca de algo inútil. A nossa utilidade é posta à prova no modo como operamos as coisas úteis do dia a dia. 
Levados na automaticidade das coisas é como se fossemos levados na maré do mundo. É esse ir e vir nas ondas que enforma as nossas vidas. Essa é uma das formas da estupidez. Esse ser levado na maré do mundo, como uma mera gota de uma enorme onda que nos sufoca. Contudo, somos incapazes de sentir esse sufocar, esse sufocamento. Tal ocorre porque somos drogados na distração. A distração é o instrumento fulcral ao funcionamento das sociedades contemporâneas. Qualquer tempo livre, todos os tempos livres nos são oferecidos ou impostos como formas de não pensar, de não exercermos o pensamento. 
O pensar aprende-se, e aprende-se fundamentalmente a partir da prática, do exercício. Tal como acontece com o aprender a ler e a escrever, há instrumentos que nos são dados, o alfabeto, a numeração e as palavras que a partir dai se geram. Contudo, todo o esforço tem que ser nosso. Somos nós que temos que nos deslocar com os instrumentos dados e a partir dos instrumentos dados, até alcançarmos o lugar, a perspectiva mais adequada à percepção do mundo. Contudo, tudo isso dá trabalho, dá mesmo muito trabalho, e tudo que temos é o dia a dia. O dia a dia e a estupidez das distrações mais imediatas. Como não sermos estúpidos? Como não sermos soterrados na estupidez? 
Regra geral, o único acto que é praticado pelo cidadão comum é o acto plebiscitário. E ainda assim não parece que o mero acto de votar se possa constituir como uma acção. Na maioria dos casos as pessoas são meramente induzidas a votar, não têm sequer noção do fundamento ideológico do seu voto, até porque, a cada rajada dos mercados, a ideologia partidária é cada vez menos visível. 
Sim, o útil e o inútil são estigmas sociais. E sim, somos vitimas mais ou menos indefesas da estupidez.

Rui Carvalho, s. d.

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