A noite aguardava-nos essa ânsia que o mundo acontecesse. Haveríamos ser estranhos e na estranheza virar todas as páginas em sobressalto. Haveríamos ler livros impossíveis, aqueles que no sangue se infiltram e depois de lá não saem. Digo-vos os nomes, sem nada de permeio: A Critica da Razão Pura; O Livro do Desassossego; O Ser e Tempo; A Morte de Virgilio; tudo de Kierkegaard; O Homem sem Qualidades; As Ondas; de Canetti, tudo também; A História de Portugal (do Oliveira Martins); Herberto Helder (a simbiose de todos os poetas, de toda a poesia). E claro está, Platão, Aristoteles, Wittgenstein; e o último livro do mais próximo amigo. Essas cores que me libertam de ser preso. Tudo isso e alguma coisa mais; tudo aquilo que da catástrofe me aproxime.
O inócuo desejo da caverna, de ser junto a Nietzsche, de com ele não enlouquecer jamais. Ser lúcido até à transparência e na transparência aquilatar o inferno de aqui estar encarcerado.
Durante a noite vemos coisas impossíveis. As silvestres plantas, esse eterno abandono junto às sebes. E a impossibilidade de recobro.
Andamos com ambos os pés, um atrás do outro, até ser demasiado tarde. Até ser apenas tempo de todos os passos se extinguirem.
Em redor.
Nada vemos em redor excepto a escuridão, as plantas que a escuridão acende. Um qualquer rasto, uma memória. Os sinais deixados para trás, todos os trilhos percorridos sem que saibamos a miséria que nos habita. Um dia, a vida explodir-nos-á as mãos e não mais teremos dedos com que afagar o corpo.
Tudo é mesmo assim. A coisa mesma e a mesma coisa, tudo é tão efémero quanto tudo o resto.
E,
além do mais:
Era uma vez o Homem.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Belíssimo 👏🏼
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