Os Livros estão escritos e as aulas serão dadas. Não obstante, o tempo passar-nos-á a perna. Será neste fim de mundo que nossos esqueletos tropeçarão.
Prolongaremos no entanto o cortejo, a aspereza dos corpos tentando escapar o declínio, esticando-nos até algures, o máximo que possa ser.
Seremos então entre as pedras, entre as ervas daninhas que ninguém quer.
O tempo arruinar-nos-á o corpo.
E.
Seja como for.
Seja como for, aqui viveremos como estrangeiros. Nossos melhores amigos serão os mortos, tanto aqueles que ainda vivem quanto aqueles que já morreram.
Desde Heráclito, Arte e Filosofia são para ninguém.
Sim, sabemos coisas impossíveis: o semear das raízes, a degradação do solo, o tempo corroendo-nos. Ainda assim, e acima de tudo: a beleza inscrita nos olhos de quem vê como ninguém.
Uma força nos empurra para dentro da Natureza, para que aí contemplemos o cerne do dilúvio. Os meteoritos caindo em redor, abrindo-nos brechas na carne.
Será aqui.
Será aqui que guardaremos a acuidade das visões, todo o resto que ainda seja de restar.
A revelação.
A revelação.
Os teus lábios nos meus lábios.
O apocalipse, onde quer que estejas ou sejas. Não o fim do mundo, o principio de tudo.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Que bonito! Um texto magnífico ilustrado por uma belíssima fotografia, bonito mesmo
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