Translate

domingo, 26 de março de 2017

Desertos - XVIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



  Uma porta que se abre, alguém que nos dá as boas vindas. Um estrangeiro aguardando o dom da hospitalidade. 
Desconheço a pertença a uma terra que não o mundo inteiro. 
Gosto de ouvir vozes, línguas desconhecidas, reconhecer-lhes a aridez dos sons, as cantadas desarmonias. Uma língua gasta-se, como qualquer outra coisa. Com o desgaste do uso as palavras perdem o seu peso intrínseco. 
Ao contrário do ódio, o amor é uma palavra gasta. Dizemo-lo tão dissimuladamente como dizemos: “vou ali mijar”. 
Partimos, chegamos, somos exactamente os mesmos. Bom, fisicamente não. O tempo deixa as suas marcas, algumas cicatrizes são irregeneráveis. Quanto ao resto há uma rotina. Chegamos dizendo amo-te, partimos dizendo exactamente o mesmo. Somos prolixos no mimetismo das proposições mais usuais. 
De tanto amor temos um mundo enterrado na perfídia. 
No amor se induzem drogas. No amor se traficam armas. No amor se vendem mulheres. Todo o dinheiro escondido nos indómitos paraísos, tão terrestres quanto nós. 
Uma porta que se abre abre-se para ser fechada. Entre o abrir e o fechar das portas há sempre duas certezas. Sabemos quando nela entramos, sabemos que nela não mais voltaremos a ser os mesmos a entrar.
Eu, repleto nesta enorme vontade de mijar.
Como a todos vos odeio, ó vil corja tecnocrata!

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário