IXXX
Rui Carvalho: Qual a correlação entre a necessidade de contemplação e a necessidade de verdade, há alguma correlação entre ambos os dispositivos?
Void: O ser a ser-se é realizado num modo disposicional. Somos as nossas várias disposições. O estar bem ou mal disposto é um indício do nosso estado de ser. As pessoas mal dispostas são mais perto do modo da contemplação. Estar mal disposto implica uma inadequação face àquilo que se é e à situação em que se está. Na contemplação estamos sós. A solidão é, por excelência, a modalidade do exercício da contemplação. A solidão é o estado daquele que contempla. A necessidade de estar só perante as coisas é um correlato da má disposição. O bem disposto é aquele que se leva e deixa levar. Levado no riso, o bem disposto é junto a todos os outros, como se todos os outros se lhe colassem à pele. O facto de todos os outros se colarem à pele do bem disposto implica duas ocorrências fundamentais. A primeira delas é o facto do bem disposto estar em constante rotação. O bem disposto roda em torno de si mesmo e em torno dos outros. Vive para espalhar a sua boa disposição. Além do mais, o bem disposto é já, e, desde logo, aquele que se dá numa disposição genérica. A disposição do bem disposto é uma disposição colectiva. A boa disposição é a amálgama onde todos estão. Ora, a partir da amálgama onde todos estão é impossível contemplar o que quer que seja. O estado de constante movimento é o estado característico da amálgama. Como contemplar um frame do que quer que seja em constante movimento? A contemplação, o exercício da contemplação, implica uma paragem. A paragem é um signo da radicalidade. Parado, o mal disposto deixa de acompanhar o estado vertiginoso da amálgama. No decurso da colagem de todos os outros à sua pele, o bem disposto torna-se um ser por ouvir dizer. O bem disposto ouve dizer que as coisas são tais como são, e esse ouvir dizer basta-lhe para sustentar o seu mundo. O bem disposto constitui-se no dizer que todos dizem, sendo que o dizer que todos dizem acaba por transformar-se no seu modo de vida. Ao bem disposto não se coloca sequer a possibilidade de necessitar de verdade. O bem disposto contenta-se com aquilo que tem, é alguém que está adequado às coisas, que gravita a coisalidade de um modo aproblemático. A necessidade de verdade é um dispositivo ontológico que brota da vivência de uma qualquer inadequação. É a partir da inadequação a uma qualquer situação que nos é dada a necessidade de ser para a verdade. O ser para a verdade constitui-se como procura, sendo que essa mesma procura equivale a uma constância no estar em espanto perante as coisas. A constância no estar em espanto pára-nos o mundo. É como se passássemos em câmera lenta os vários frames que nos constituem a realidade. Como se fossemos assolados pela necessidade de retirar a verdade dada em cada um dessa miriade de frames.
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