Alimento-me de peixe cru trazido na corrente do rio. É fácil habituarmo-nos a viver com pouco quando tudo que queremos é ser ao contrário do mundo, pequenos barcos transitando o imenso mar. Precavi-me das intempéries secando o peixe sobrado. Após a secagem o peixe torna-se comestível durante um largo período de tempo.
Neste barco transitei os rios, transcorri o avesso das águas até à nascente das coisas. Sim, fui ao contrário da gravidade. Agudo, no pretexto que me funda. Percorri planícies desérticas, caminhos que pudessem edificar-me, precaver-me da estupidez dos homens. Fui o rombo de minha carne. Saturei as feridas com as linhas da pesca.
É este meu corpo.
São estas as cicatrizes do tempo.
Não há nada a fazer, as pessoas são o que são. Se as circunstâncias de minha vida fossem iguais às da geração do Minotauro seria eu o enclausurado no labirinto de Creta.
Trar-me-ia então Egeu o periódico fausto de sete donzelas. Assim me julgaria feliz até ser dizimado por Teseu, aquele que após minha morte perderá seus amores de sempre; seu pai, o nobre Rei de Atenas, Ariadne, sua doce amada.
Não há nada a fazer. É necessário percorrer toda a estupidez do mundo para que percebamos nosso valor. Alarves na ganância até ao vislumbre dos precipícios. Nada temei. Somos cadáveres adiados.
Igualzinhos uns aos outros, sem nada por, sem nada tirar.

Muito bom
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