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sábado, 11 de março de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXVIII

XVIII

Rui Carvalho: a contemplação implica o desabitar da vertigem, sendo que essa desabitação corresponde, por outro lado, à constituição de uma necessidade ontológica fundamental, a necessidade de contemplação, é isso? 

Void: a contemplação ou o seu exercício implicam um esforço para permanecer, para estar perante as coisas. A perantidade é um local que se conquista. O habitual é a velocidade, que passemos pelas coisas de uma forma veloz, a uma velocidade estonteante. Também o mundo tem as suas várias velocidades. Contudo, com a advento da globalização económica e social tudo tende a ser mais ou menos o mesmo, a ter exactamente a mesma velocidade. É diferente a velocidade com que se vive no campo e a velocidade com que se vive numa grande metrópole. Os tempos são completamente dispares. No campo o tempo corre mais lento. Corre mesmo. Ainda que os segundos passem exactamente com a mesma velocidade, quer num quer noutro lugar. Não obstante esta diferença entre os vários tempos do mundo, a temporalidade é igual em todo o lado. A temporalidade perpassa o mundo, tornando-o uma realidade unívoca. Quer o sintamos no modo da lentidão, quer o tenhamos no modo da velocidade extrema, sentimos que o tempo passa. Este sentir da passagem do tempo é uma realidade universal que colhe todo e qualquer humano. É isso a temporalidade, sentir a passagem do tempo na carne. O sentir da passagem do tempo torna-nos mais atentos, como se quiséssemos preservar cada segundo, preservá-lo como um instantâneo em nossa memória. Ao visar as coisas, a nossa mente funciona mais ou menos do mesmo modo que uma câmera de filmar. Vislumbramos vários frames. É a junção dessa miriade de frames num módulo de sentido que nos erige como pessoas, como individualidades com uma identidade própria. Os frames visados variam de pessoa para pessoa. Se houvesse a possibilidade de dois seres visarem exactamente a mesma série de frames no decurso das suas vidas seria enorme a probabilidade de ambos serem exatamente a mesma pessoa. Não a mesma pessoa na carne, mas a mesma pessoa na alma ou na memória.  
Trata-se de nos exercermo-nos no modo da fotografia. Trata-se de conseguirmos permanecer no mesmo frame o tempo necessário a podermos dissecá-lo. Acho que é a isso que chamamos contemplação. A perantidade, a permanência perante as coisas até que as mesmas se nos integrem. Até que as coisas adquiram a forma de uma paisagem, de uma paisagem em nós. Na contemplação adquirimos a forma da paisagem. É essa aquisição da paisagem em nós que possibilita o visar das coisas tal qual elas são, não apenas como objetos dados na exterioridade, mas como exercícios do ser. Na contemplação tornamo-nos o sendo, tornamo-nos o ser a ser-se.   

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