XXVI
Rui Carvalho: Ok, em democracia podemos sempre escolher uma coisa ou outra, mas não será que essa escolha entre uma coisa ou outra é de tal modo manietada que jamais nos é dado escolher entre coisas distintas e, pelo contrário, desembocamos sempre na escolha do mesmo?
Void: Sim, vivemos uma espécie de simulacro democrático. A teia urdida pelo sistema financeiro a partir do seu grande instrumento de poder, os denominados mercados financeiros, coloca completamente à sua mercê o poder político.
A comunicação social encontra-se, ela própria, completamente manietada pelo poder financeiro. Os jornais e as televisões são pertença da alta finança e dos grandes grupos económicos. Tal facto conduz à manietação do sentido de voto das populações através de uma opinião pública bipolarizada em torno de dois grandes partidos que se revezam entre si no acesso ao poder político.
Vivenciamos um período de absoluta esquizofrenia social. Vivenciamos a esquizofrenia social do homem sem propriedades, do homem meramente quantitativo. É impossível que uma mesma pessoa seja, ao mesmo tempo, um capitalista neoliberal e um cristão. Contudo, existe um miriade de indivíduos que advogam sê-lo. Tal só pode significar que, ou estamos perante gente destituída de qualquer sentido de realidade ou estamos perante gente ignominiosa.
As palavras, o pensamento, o significado não têm ressonância, deixaram de ter ressonância. O homem sem propriedades é meramente adestrado através dos reflexos condicionados. Quando a generalidade das pessoas vota não o faz com uma verdadeira consciência política do seu acto. O voto da generalidade das pessoas ocorre como uma espécie de voto televisivo no actor de uma telenovela. A gente vota no actor mais apresentável. As pessoas sabem lá o que verdadeiramente distingue a esquerda da direita política. Por vezes é mesmo difícil fazê-lo. Por exemplo, esquerda e direita usam quase o mesmo discurso patriótico, de defesa da pátria. Claro que continua a existir uma diferença entre esquerda e direita, mesmo agora essa diferença existe, ela sente-se no modo como as pessoas são tratadas. Há uma diferença clara entre o discurso doentio de um Passos Coelho e o discurso do António Costa. Mesmo quando todas as diferenças parecem esbater-se, mesmo quando se institui à martelada o instituto do fim das ideologias, o estúpido discurso do fim da história, existem sempre diferenças, por mais ínfimas que possam parecer. É a essas diferenças que nos devemos agarrar. Devemos saber agarrá-las e fazê-las crescer.
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