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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXV

XXV

Rui Carvalho: a “trampa que se constitui como cerne do mundo”, tal como o afirmas, é a trampa capitalista e todo o arsenal de falácias politico sociais que são geradas pelo sistema financeiro, e que lentamente nos corroem. Estamos enredados numa espécie de teia. O sistema financeiro é a aranha que governa o mundo. Somos reféns nas garras dessa mesma aranha. Há toda uma teia de interesses que enreda os centros de poder. Tanto o poder politico, quanto o poder jornalístico são reféns do sistema financeiro. É esta condição social de algum modo reversível?

Void: O instinto é aquilo que é comum no humano. Desde cedo somos conduzidos pelo instinto. É precisamente a proliferação do instinto, ausente de quaisquer regras, que se encontra na génese do capitalismo e das sociedades capitalistas. O Laissez-faire consiste justamente nessa necessidade de deixar o instinto germinar sem o entrave de regras que o coíbam. O Laissez-faire, enquanto expressão que simboliza a pureza do liberalismo económico, indica-nos a necessidade do mercado funcionar livremente, aceitando-se somente os regulamentos necessários à protecção dos direitos de propriedade, essencialmente o direito à propriedade privada. 
Para os sistemas capitalistas a unidade básica das sociedades é o indivíduo e o indivíduo tem o direito natural à liberdade. No âmbito capitalista o direito à liberdade do indivíduo é conseguido se se deixar a ordem das coisas funcionar, sem os entraves de regulamentos que impeçam a livre proliferação da riqueza. Para os dogmáticos da religião capitalista (sim, o capitalismo é uma forma de religião), o sistema capitalista é entendido como um sistema harmonioso e autorregulado que funciona por si mesmo. 
O ideal capitalista consiste em realizar o maior lucro possível no mais curto espaço de tempo possível. Não importam os meios para atingir a finalidade do lucro. A única coisa que realmente importa é o preenchimento do objectivo. O lucro. É ridículo pensar um empresário ou um industrial com ética. O capitalismo e a ética são entidades contraditórias entre si. Mesmo que um empresário com ética hipoteticamente existisse, o mesmo seria desde logo trucidado pelas leis do mercado, pelas leis da concorrência, isto é, jamais obteria o almejado sucesso empresarial. 
O capitalismo é contrário à ética. A ética consiste justamente em atentar nos meios para atingir os fins. No sistema capitalista, todo aquele que atente nos meios para atingir os fins é desde logo ultrapassado, trucidado mesmo. 
Ou se pretende uma sociedade capitalista ou se pretende uma sociedade com ética. Não é possível termos uma sociedade eticamente capitalista, isso é uma impossibilidade ôntica.  
Sim, é possível a escolha. Há sempre uma alternativa para um determinado estado de coisas. Trata-se de escolhermos se pretendemos habitar uma sociedade capitalista ou se pretendemos habitar uma sociedade com ética. A escolha é simples. Ou uma coisa ou outra.

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