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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Desertos - XV - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Contemplo a descoberta do chão, algo que ainda me surpreenda mesmo quando já nada me possa surpreender. É esse o segredo. Dar continuidade à paixão até que do chão se descubra o que nas pedras se esconde. É fundamental saber olhar as pedras, nelas descobrir o cintilar das estrelas. Apreender a arte da joalharia. Procurar caminhos pedregosos e através deles dirigir-me no mais agreste troço. Saber que nada sei. Ser o desejo de aprender esse dom: a extração da beleza no pior imaginado. 
Sobrevivo os escolhos, toda a estupidez dos homens. Esse fétido cheiro de lixeira a céu aberto. Olho os homens ruminando o mundo, como ratos, despejados na mania da superioridade. Tão imbecis. Atávicos no imbecil mimetismo dos outros. Desejando a vanidade, todo o poder imbuído em suas mãos vazias.   
Este chão que me incide, que pelos pés me arrasta até ao concreto do cimento. Percorro-o com a incerta certeza de saber que estou certo. 
Comigo arrastei tempestades, searas onde me colhi. Fui improvável. Fui improvável até tornar-me quase deserto. Habitei a destreza de minha infância até torná-la imprópria. Sim, tornei-me velho antes ainda de o ter sido. Arrastei o chão até minhas mãos, transpu-lo até perto das nuvens e com ele me voei. Voei-me, até que as aves grasnassem meu nome. 
Eis-me.
Aguardando a presença do céu, um qualquer simples gesto em teu corpo.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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