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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Desertos - XIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho


 Para lá deste céu apenas existem ruínas, os escombros de uma qualquer explosão. Um deserto idêntico a nada haver.
Contemplo o horizonte, aí viso o plano onde terra e céu se unem. Interpostos no mar. Esta abstracção de linhas sobrepondo-se à paisagem. Nas linhas leio tudo que nelas se inscreve. O tempo, transcorrendo.
Desenho um ponto imaginário no espaço e nesse ponto vislumbro o equilíbrio. 
Recupero o tempo perdido, acho.
Coloco um pé no ponto imaginário e com o outro pé empurro os dias até onde me seja possível empurrá-los. Acompanho assim o percurso dos astros. Gravito a paisagem, tento descrever uma órbita certeira. Entre um lugar e esse mesmo lugar. Algo como a eterna repetição do mesmo. O mesmo peso caindo, repetidamente. O mesmo peso levantado, indefinidamente. 

Colo o mundo em meu peito e nele tatuo o declínio. Nada mais. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho 

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