Em baixo, chegam e partem comboios. Ao longo da linha férrea há um frio que me tolhe. As barras de aço são em frente, convergem no ponto de fuga. Convirjo com as barras, um olhar que me dança sobre os carris. Tanto metal indicia um estado de coisas, algo como uma espessura. A essa espessura chamamos mundo.
Perante mim, a extensão da realidade. Não apenas uma coisa extensa. Uma densidade que me ecoa. Passageiros e mercadorias, a azáfama do mundo. É a azáfama que me transporta às coisas.
O que vemos é em nós. Somos o que vemos. Quando um muro nos embate, a colisão é-nos interior. Acho que pretendo tornar-me aço, algo como: esta desértica paisagem. Permaneço, até que me torne quase idêntico ao que vejo. Melancólico. Estruturado. Uma estrutura de ferro forjado suportando o embate do mundo.
Torno-me apto para o combate.
Apronto-me.
Aponto ao horizonte mais longínquo, um lugar chamado Itaca, alguns milénios atrás. Penélope, minha amada, Telêmaco, meu adorado filho.
Sou, entre o desencanto da partida e o desconhecimento da chegada. Surpreso do que está para ser.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Sempre tudo tão bonito! Um texto maravilhoso com a fotografia que casa tão bem. Bravo
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