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domingo, 13 de agosto de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - V - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Aguardo, 
                as formas caindo do Sol, incidindo directamente em teu rosto.  
Que depois se faça uma pausa - o brilho das coisas - e que essa pausa se chame: olhar-te. Acho que te oiço chegar. Neste lugar onde não há números, vontades numéricas, onde apenas há a aparição do Sol e da Lua, a derivação dos pontos cardeais. 
O homem que beijar teus olhos será o homem da tua vida. Não precisas ler livros. Não precisas sequer cair no desassossego. Chegarás à porta e verás que estou só, sempre estive. 
Espero por ti. 
Aguardo-te entre a solidão das coisas! 
Enfrento o mundo sem deus, sem uma janela que seja, sem uma janela que se abra e que te desvende. 
Nada me interessa no inexacto percurso das janelas. Procuro-me entre as pedras, entre as pedras reergo o lugar onde o amor medra.   
Procuro as portas, a saída e a chegada. 
A diferença faz-se no que criarmos. Nem bem nem mal, somente a beleza, apenas a beleza das coisas. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

sábado, 12 de agosto de 2017

Útero - VII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Em pouco tempo serei traçado pelos navios. Cargueiros de grande porte sulcar-me-ão os rombos em minha carne. Aí se reabrirão cicatrizes onde o inciso desejo buscará o seu lugar. 
Serei então perdido para te encontrar. Sofrerei de inadequação, esse vírus onde germina o ócio, a inteligência das coisas.  
Tornei-me um acidente alimentado pelos mares, pelos terríficos oceanos, esses distantes lugares onde escreverei para não morrer de tédio e não matar de ódio. 
Tal qual Jesus Cristo, fomos abandonados pelo Pai, e, no abandono nos tornámos órfãos de nós mesmos.
Contudo, jamais deixarei a vida ser coisa pouca. 
Quando o mundo chegar para me abater estarei pronto, 
                                                                                   serei já literatura.


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 6 de agosto de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - IV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



O eco do mundo inicia-se onde já nada se espera. Termina nesse mesmo lugar. Podemos escutá-lo, como se para sempre fosse. 
O mistério é esta luz erguendo-se na escuridão, a intangível surpresa do primeiro olhar resvalando na aparição das coisas. Nem tudo são árvores, vegetação povoando-se no mais enigmático silêncio. 
Contudo, a beleza é aceitarmos a dádiva das florestas, embrenharmo-nos no ritmo dos troncos e aí sorvermos a vida durante um longo período de tempo. Logo após, estaremos aptos. 
Convoco-me no discurso do mundo, na delirante surpresa da pós apneia. 
Ao olharmos para cima somos incididos pela luz. Esse é o momento. O instante do vislumbre. A paisagem tolhe-nos até às lágrimas e no interior da visão tolhida dar-se-ão os reencontros.  
Como somos distantes, correndo como alarves para o nascimento do Sol na pretensão de o agrilhoarmos ao nosso querer. 
Assim nos magoamos mutuamente, enleados na estúpida ânsia de nos adquirirmos nas paisagens.
Apenas tua pertença me interessa. 

Do Sol aguardo apenas os raios, toda esta luz incidindo em teu rosto. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

sábado, 5 de agosto de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXVIII

XXXVIII

Rui Carvalho: a génese da Hidra do capitalismo institui-se então a partir da imposição do não valor como valor e da imposição do medo como fonte de governação. O exercício da perfídia é a condição que nos move, é a condição que possibilita o funcionamento do capitalismo financeiro?       
Void: O triunfo do capitalismo financeiro representa a tomada de assalto da economia e do poder político por parte dos banqueiros e da alta finança. Sim, a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação são as duas condições primordiais do exercício da perfídia. Ou melhor, o exercício do capitalismo financeiro e o exercício da perfídia estão tão interligados entre si que se tornam uma e a mesma coisa. 
Vivenciamos uma mudança histórica no que concerne ao paradigma que funda as estruturas societárias, principalmente no mundo ocidental. Especialmente o mundo ocidental. Especialmente no que concerne à estrutura societária europeia. A mudança de paradigma. A mudança de paradigma deriva da transição de um modelo de sociedade que teve como base o capitalismo económico para um modelo de sociedade que tem como base o capitalismo financeiro. A transição entre estes dois modelos de sociedade é aquilo que está na origem da hecatombe social e política que devasta nesta altura os países da Europa do Sul e que acabará por devastar inevitavelmente a própria Europa e o modelo social europeu tal como o conhecemos.
O capitalismo económico encontrou os seus alicerces na revolução industrial e na correlação entre dois factores fulcrais, a saber, o trabalho e o capital. Neste tipo de sociedade, porque o capital não era auto-multiplicável a partir de si próprio, mas sim a partir da força de trabalho que constituía a sua alavancagem, a obtenção do lucro, o objectivo primacial deste tipo de sociedade, era completamente dependente da força de trabalho. Assim, a correlação entre o factor trabalho e o factor capital era visceralmente interdependente e como tal a relação de poder entre os capitalistas, os investidores, e a forca de trabalho, os operários, representados pelos sindicatos tinha vários factores de amortecimento que impediam a total subjugação do factor trabalho ao factor capital. As várias conquistas sociais transcritas no modelo social europeu resultam desta simbiose, desta simbiose entre trabalho e capital.
O problema. Os problemas derivam da instituição do capitalismo financeiro. O paradigma do capitalismo financeiro possibilita que o capital seja auto-multiplicável a partir de si próprio. O capitalismo encontrou maneira de prescindir do factor trabalho. O trabalho deixa de ser fundamental na obtenção do seu objectivo primacial. O lucro. O lucro financeiro pode agora ser obtido a partir do nada. O lucro financeiro pode ser obtido a partir da mera especulação. A mera especulação e a criatividade associada aos produtos financeiros permitem que a riqueza se auto-multiplique a partir de si própria. Os investidores, os capitalistas não necessitam mais preocupar-se com trabalhadores e sindicatos. Não necessitam mais preocupar-se em lidar com o poder dos trabalhadores e das organizações sindicais. O lucro. O lucro é agora o lucro pelo lucro. O capital depende de si próprio. Pode auto-multiplicar-se de um dia para outro. É desnecessário aguardar anos, décadas para que os investimentos se tornam viáveis e lucrativos. O capital é agora auto-suficiente. A auto-suficiência capitalista é a gangrena do mundo ocidental. O mundo ocidental e o seu estado de providência gangrenam ao peso do jugo capitalista. A lógica e a dinâmica do contrato social perdem cada vez mais sentido sob o jugo da gangrena do capitalismo financeiro.
A partir do momento em que são os próprios governos e os estados a sucumbir perante este estado de coisas, tornando-se reféns dos denominados mercados financeiros e tomando mesmo partido como defensores dos bancos e da alta finança, aquilo que se verifica é um claro rompimento do contrato social. Os governos que deveriam funcionar, na sua essência, como verdadeiros reguladores e estabilizadores da vida em sociedade encontram-se neste momento de tal modo conluiados e manietados pela teia habilmente urdida pelo sistema financeiro que são eles próprios os impulsionadores dos mais hediondos desequilíbrios sociais. Quando se exige a um assalariado que aufere rendimentos mínimos que contribua para o financiamento da banca, torna-se por demais evidente que estão claramente a ser ultrapassados os mais elementares limites do decoro e da mais elementar ética política e social. Quando se exige a um desempregado, ainda que a receber subsidio de desemprego, que desconte parte desse subsidio para obstar a falência do sistema bancário está-se a cometer um acto hediondo, um acto criminoso.
Se tudo isto não se trata de um claro exercício da perfídia...

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sobre toda a escuridão - V - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Habitámos casas perto da rendição, pintámo-las de cores vivas, entre o vermelho sangue e o brilho de teus olhos. Pintados de negro, exercemos o  esforço guerreiro de durar. 
Sim, procurámos o mundo onde ele não existe.
Quanto a mim, quero apenas manter-me branco, forte; branco e alcalino como a cal. Assim saberei controlar a aridez do solo. 
Quanto às casas: todas perecerão. As casas são devolutas e, além do mais, um qualquer abrigo me serve. 
Sejamos claros: somos vitimas do passado, do nosso passado; a partir de agora apenas teremos futuro, e, algumas rosas rareando nas pétalas - silabas tombadas no abandono. 
Será que apenas eu saberei dizer as coisas difíceis? A dificuldade da partida. 

Nem mais nem menos: saberei ser a superação do deserto. Abandonar-te-ei por não saber já  como amar-te mais.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - IV

Europa


Alvo touro descendo na neblina
até ti
orgulhosa filha do rei da Fenícia.
Europa, a mais bela entre as mulheres.
Eis-me!
Eis a luminosa manhã fecundando em nossa re-aproximação.
O sedutor artífice da metamorfose
pousando meus olhos em tua face.
Junto a ti sulco as areias da praia avançando mar adentro.
Montai meu dorso cor de neve
porque a Creta te conduzo,
Ó futura mãe de Minos.
Escutai meu terno mugido anunciando vossa sorte,
agora que vos é dado vislumbrar a esplendorosa visão de Zeus.
Agora,
que chegado é o instante que vos tornará pródiga.
Desfrutai célere todo o prazer que de mim emana,
Ó vós 
que breve escutareis o suplicio das hordas tecnocratas
urdindo o terror.
Vós que enredada no terror tecnocrata, 
envolta sereis em arame farpado
pelos ignóbeis fantasmas que vos assolam.
Todo um Mundo em teu redor,
Ó bela e doce Europa 
transmutada
no ignóbil condomínio privado que hoje sois.
Em tuas praias, aos milhares
a Humanidade sucumbindo à vil ganância desta corja
implodindo o mundo.

Aviltando os dons de Zeus, teu fecundador.

Rui Carvalho, s. d.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXVII

XXXVII

Rui Carvalho: Parece termos passado de um tempo onde o poder era exercido pelo mais forte para um tempo em que o poder é exercido pelo mais pérfido. Qual o poder mais justo, o poder do mais forte ou o poder do mais pérfido? 

Void: A auto-preservação. A auto-preservação mostra-se o facto moral elementar que socorre a transição entre o poder do mais forte e o poder dos muitos. A necessidade de preservação da existência física individual torna-se uma lei da natureza a partir do momento em que os mais fracos adquirem a consciência que são muitos. A consciência de ser muitos dos mais fracos tem como contrapartida a consciência que o senhor adquire de que a sua vida corre perigo. O senhor passa a poder vislumbrar a sua morte à mão dos muitos. A génese de todos os conceitos de justiça e de direito estão directamente fundados nessa necessidade vital, nessa busca racional da auto-preservação. 
O receio da morte, o receio da morte violenta é o impulso que conduz o humano até ao advento do estado liberal. A injustiça e o erro mostram-se assim como factores que conduzem à violência, à guerra e à morte. 
O estado de direito não só se funda, como verdadeiramente nasce a partir das cinzas do estado de natureza. Antes da instituição do estado de direito e da positividade da lei, apenas existia o direito natural, o direito natural de cada um a preservar a sua própria existência permitia-lhe utilizar todos os meios indispensáveis à conquista do fito da própria sobrevivência, inclusive a violência. 
O antídoto fulcral para a anarquia que grassa o estado natural foi a instituição do Estado. O Estado é estabelecido a partir do contrato social pelo qual todos os homens concordam em abdicar do seu direito natural a todas as coisas e a contentarem-se com a mesma quantidade de liberdade em relação aos outros que permitem em relação a si próprios. A legitimidade do estado de direito reside justamente na sua capacidade de proteger e preservar os direitos que todos os indivíduos possuem enquanto seres humanos. 
O direito fundamental é o direito à vida, isto é, a preservação da existência física de todos os seres humanos e o único governo legítimo será aquele que seja capaz de preservar adequadamente a vida e evitar o regresso à guerra de todos contra todos.
Não existe pois uma “justiça ontológica” que justifique o exercício do poder. O exercício do poder deriva de uma necessidade prática. Neste sentido também as noções de justo e injusto são "meras" necessidades práticas. 
A perfídia evidencia-se quando o exercício do poder não cumpre esse paradigma, essa necessidade prática de prover a preservação da existência física de todos, nem a existência física nem a existência espiritual. O espirito, o único foco de sentido capaz de dar sentido às nossas vidas é a cada segundo destruído pela deriva capitalista. É aí que reside a perfídia, na deriva capitalista. Na imposição do não valor como valor. Na imposição do medo como fonte de governação.     


Rui Carvalho, s. d.