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domingo, 9 de outubro de 2016
sábado, 8 de outubro de 2016
Entrevista a Sebastien Void - V
Excerto da entrevista a Sebastien Void
V
Rui Carvalho: depreende-se do teu discurso que a Arte constitui o epicentro da tua vida. Ao que parece, sem arte a tua vida seria destituída de sentido. Até que ponto a tua vida e a arte são acontecimentos indistintos?
Void: a arte é edificante. A arte é o acontecimento da edificação. Sendo a arte o acontecimento da edificação é evidente que arte e vida se revelam acontecimentos indissociáveis. A arte é uma emanação do carácter. É indispensável ter-se carácter para se ser produtor de arte. Acho que é por isso que nunca me assumi verdadeiramente como um artista. Sempre achei que o meu carácter não era suficientemente forte. Não era ainda suficientemente forte. Por isso decidi edificar o meu carácter. A edificação do meu carácter seria o passo a dar. Só edificado me atreveria a mover-me no domínio estético. A falta de carácter é mesmo o primeiro motor da não arte. O mundo tresanda a indivíduos destituídos de carácter que se alcandoram a artistas. Um gajo tem que ter algum respeito. Um gajo houve Bach e fica atónito com o carácter que emana daquela música. Depois de ouvir uma música com tanto carácter ficamos exangues. O que podemos fazer? O que podemos fazer para chegar lá? O que podemos fazer para alcançar o carácter daquela música? Bom, não apenas o carácter daquela música, a genialidade daquela música. Nada. Ou nascemos génios ou nada feito. Na música de Bach não se trata apenas de carácter. Trata-se de génio. Ou se é genial ou não se é genial. Existem três grandes domínios artísticos, a não arte (a arte destituída de carácter), a arte com caráter e a arte de génio. O problema é chegar à arte de génio. Como chegamos lá? Como viver a arte de génio? Como fazer de nossas vidas o acontecimento do génio? Como fazer de nossas vidas uma obra de arte? É isso que nos deveria preocupar. É isso que me preocupa. Preocupa-me a edificação. Ao edificar-me percorro etapas. A etapa posterior solidifica a etapa anterior. E assim sucessivamente. Sou por camadas. A edificação faz-se percorrendo etapas, subindo degraus. A subida dos degraus torna-me mais próximo da aquisição de carácter. O Bowie é, talvez, o exemplo mais próximo e mais claro de alguém cuja vida foi vivida enquanto obra de arte. A vida do Bowie foi uma obra de arte, a morte do Bowie é uma obra de arte. É impossível dissociar a vida e a morte do Bowie do seu legado artístico. É indispensável que nos saibamos fazer arder. A Arte é o acontecer da ardição. O artista é uma fogueira a arder. A arte é entre as chamas. O artista é aquele que é em chamas. Tal qual a arte, também a vida arde. Somos seres de ardição. Tal como disse o Artaud, procuro ser aquilo que devo ser, uma “vitima queimada na pira, a transmitir sinais por entre as chamas”.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Entrevista a Sebastien Void - IV
IV
Excerto da entrevista a Sebastien Void
Rui Carvalho: viver na exiguidade ou na exiguidade extrema é estar a ser contra o mundo, é estar a ser contra a maré do mundo. Ser constantemente contra a maré do mundo é uma posição difícil ou mesmo insustentável, como sustentas a insustentabilidade da tua posição?
Void: a vida é um jogo de sorte e azar. Habitamos um casino onde a sorte é um fenómeno raro. O prémio sai sempre à casa. Pelo menos quase sempre. Somos seres de hábitos. Também eu sou um ser de hábitos. Tudo é uma questão de habituação. Habito o mundo de mortos em meu redor. Os mortos acompanham-me, os mortos possibilitam-me suportar o embate do mundo. Quando sinto que me encontro numa posição ou num humor mais insustentável agarro-me ao Livro do Desassossego. Os livros já me salvaram a vida várias vezes. Os livros e a música. A Arte, a Arte salva-me a vida. A cada dia. A cada fricção com a realidade é a arte que me sara as feridas. A arte, somente a arte nos pode salvar sermos soterrados na avalanche de imbecilidade que nos rodeia. A imbecil atmosfera do mundo seria insustentável sem arte. Somente a arte nos pode atenuar o desencanto. O desencantado é o ser que germina no canto. O desencantado erige-se no canto. Prostrado longe do vulgo o desencantado germina no canto. A arte é uma erva daninha germinando, mesmo entre as ruínas. É estreita a correlação entre a arte e o sofrimento. A arte germina no sofrimento, nasce do sofrimento. O artista é aquele que sofre a inadequação ao mundo. Tal qual o filósofo. A produção artística e filosófica nascem do sofrimento do mundo. A inadequação. A inadequação ao mundo é a condição primeira do acontecer da arte e da filosofia. Inadequados. Inadequados estamos em desequilíbrio. A produção artística é o evento que me possibilita o equilíbrio. Funâmbulo. Sou-me no exercício do funambulismo. A arte é a vara que me equilibra. Entre os extremos. Sou um exercício de equilíbrio. Entre os extremos. Exerço-me devagar e sem demasiadas acrobacias. É esse o segredo. É essa a condição que me suporta. A arte suporta-me o peso do mundo. Caminho as palavras, os tons, os sons. Caminho os resquícios de beleza. Até que os resquícios me habitem. Sou-me habitado nos resquícios. Sou-me o que resta da agrura. Sou entre a agrura das coisas. Na agrura me germino, sou a germinar na agrura. Funâmbulo. Meus pés rasgam o arame dos dias. Até ao rasganço dos caminhos. O desbravamento situa-me. Sou o ser situado. Entre o fim e o princípio. A vida é o regresso da morte. Na morte somos regressados. O regresso não é uma mera possibilidade. O regresso é todo o domínio do possível. Sou em preparação. Impreparado. Impreparado me sou na preparação do regresso. Vou e venho com as marés. Assim me habituo a natureza das coisas. Água, ar, terra, fogo. Sou a demanda dos elementos. Procuro o oficio da demanda, na demanda me germino. Funâmbulo. Funâmbulo sustenho o embate das marés do mundo.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
O desespero é ser-se amaldiçoado no duplo toque da desavença. A necessidade de verdade e, na necessidade de verdade, o dom da escrita. O desastre. O desastre e a sublimação do desastre. O naufrágio. O acontecer de mim mesmo emergindo no naufrágio. Ser para a verdade é ser para o naufrágio. É ir até à perda de pé. Ir até à perda de pé e naufragar. Sou a demanda do nado. Na perda de pé sou a demanda do nado. A nadar. A nadar, matéria e forma se conjugam na imprecisão do dizível. A nadar sou dado na impossibilidade de transcrição do real. No nadar sou a luta. A luta lutando. Até ao avesso das vísceras. A luta é até ao avesso das vísceras. Até ao vislumbre da possibilidade inaugural. A clareza. Um rasgo de claridade. Até ao rasgo de claridade. O rasgo de claridade é o instante inaugural. A confusão é escura, escusa. Na confusão ocorre o rasgo. Nado na escuridão. Sou naufragado na escuridão. A claridade do clarão acrescenta-me ao mundo. O todo da visibilidade é indiscernível. Somente temos acesso ao rasgo. A necessidade de verdade é um correlato da necessidade de transparência. O rasgo não proporciona transparência. O rasgo apenas dá alguma luz. A claridade dá alguma luz. A claridade da alguma luz é momentânea. O rasgo enche-nos na estranheza. No rasgo estamos estranhos. O rasgo é pouco tempo. O ser pouco tempo do rasgo exige-nos rapidez. É necessário ser-se rápido, de modo a acompanhar o instante do rasgo. Como uma droga. O rasgo torna-se viciante. Tornamo-nos adictos do rasgo. Somos adictos do rasgo. Queremos rasgo, cada vez mais rasgo, e que o rasgo dure cada vez mais tempo. Queremos que o rasgo nos traga transparência. Somos necessitados de transparência. Somos guiados na vontade de verdade. O desespero. O desespero advém da humana incapacidade de adquirir transparência. O rasgo é a única possibilidade. Ao queremos mais que o rasgo estamos perdidos. Ser perdido no naufrágio é estar em desespero. A busca da transparência é um acto insano. Procurar transparência no domínio do possível é um acto de insanidade. Somente nos é dado adquirir o pequeno rasgo de claridade. Porque não me fico pela claridade? Porque há em mim a exigência do transparecimento? Porque sou insano? Porque continuamente rasgo as vísceras nas palavras? Porque me são caras as palavras? São as palavras a transcrição do mundo? Porque me ecoam as palavras? Porque não sou outro? Porque não sou vão? Porque não sou vão como o mundo? Porque pretendo que o mundo me faça sentido? A estranheza é perto da insanide. Tão perto que quase se tocam. Insanos. Porque não é nosso mundo o mundo das casas habitadas? Porque é estranho o nosso habitar? Damos passos na floresta. Ao dar passos na floresta adquirimos a forma do ser florestal. Somos aqueles cujos uivos à noite se ouvem. Perplexos. Perplexos na impossibilidade do transparecimento. Vagando adquirimos a forma do vagar. Vagando emitimos sinais. Somos emissores de sinais. Também a escrita é vaga. Palavras. Meros sinais significando o mundo. Interior e exterior. O interior e o exterior do mundo. O mundo lá fora e o mundo cá dentro. Como conjugar o inconjugável? Porquê a inquietude do conjugar? Como fazer que o mundo lá fora faça sentido cá dentro? É o sentir sentido? É o sentido visível? A transparência. Como visar a transparência? É a transparência lá fora ou é a transparência cá dentro? Existem duas modalidades de transparência? Se existem duas modalidades de transparência são elas perscrutáveis entre si? Porque queremos mais que o que podemos ter? Porque não queremos coisas? Porque não queremos coisas e mais coisas? Porque não queremos ser colecionadores de coisas? Porque colecionamos palavras? Porque trocamos as coisas pelas palavras? Porque nos são as palavras valiosas? Porque não fazemos silêncio? Porque não fazemos silêncio para que o silêncio nos toque? A nadar. A nadar nadamos no nada.
domingo, 2 de outubro de 2016
Entrevista a Sebastien Void - III
III
Excerto da entrevista com Sebastien Void
Rui Carvalho: explicaste-nos um pouco como entendes o funcionamento do mundo, mas não nos explicaste o modo como te relacionas com as pessoas que fazem funcionar o mundo. Como é o teu relacionamento com os seres acabados que alegremente fazem o mundo funcionar?
Void: os seres acabados são seres sem dúvidas. Os seres acabados almejam o sucesso, a todo o custo. Não há tempo nem espaço para indecisões. Os seres acabados decidem, sem dúvidas e preferencialmente com muita pressa. O segredo do sucesso é ser-se rápido. O segredo do sucesso é ser-se rápido e preciso. Como uma bala. Não há lugar para contemplações. Contemplar é perder tempo. Agir. É fundamental agir, tão rápido quanto possível. Quanto mais depressa melhor. Somos levados na enxurrada da acção. O fundamental mesmo é agir, agir rápido e em força. Não interessa a medição do agir, de todo. O sucesso não admite contemplações. Nem estéticas nem éticas. É fundamental que façamos o nosso mundo rolar. As nossas acções deverão contribuir para que o nosso mundo ande sobre rodas. Pouco importa que para que o nosso mundo ande sobre rodas tenhamos que empacar o mundo dos outros. Somos partículas de realidade atomizadas. Cada um de nós. Cada um de nós é o seu mundo. Cada um de nós é o seu mundo particular. Cada um dos nossos mundos é uma realidade particular e intransmissível. Há partículas de realidade que se repelem e outras que se atraem. Há mundos que se cruzam e mundos que jamais se unem. Os seres acabados empacam o mundo. As acções dos seres acabados não contemplam o lugar do outro. Ou melhor, as acções dos seres acabados vão sempre no sentido de ocupar o lugar do outro. De empurrar o outro para fora de cena. Os seres acabados jogam o jogo dos lugares. Todas as suas vidas gravitam em torno da necessidade de ocupar lugares. Trata-se de ir subindo hierarquias. Os seres acabados são peças no jogo das hierarquias. Ocupando lugares os seres acabados adquirem existência. As suas existências dependem dos cargos que ocupam. Chamemos-lhes ocupantes de cargos. Os ocupantes de cargos são os responsáveis pelo funcionamento ou não funcionamento do mundo. Parece ser mais ou menos evidente que habitamos uma realidade disfuncional. Os ocupantes de cargos são os principais responsáveis pela disfuncionalidade do mundo. Todos somos responsáveis. Todos nós somos responsáveis por deixar que a ganância habite o coração das coisas. Há no entanto graus de responsabilidade. Os ocupantes de cargos são infinitamente mais responsáveis que cada um de nós. Os ocupantes de cargos são gente abjecta. Gente abjecta e imbecil. Os ocupantes de cargos pululam, de cargo em cargo. O melhor exemplo actual de um ocupante de cargos é o Durão Barroso. O Durão Barroso é um personagem abjecto. Acho que sinto qualquer coisa entre o nojo e o ódio. É o que sinto para com esta gente, para com toda esta corja pululante. Desprezo. Acho que é desprezo o que sinto. Não me relaciono. Pura e simplesmente não me relaciono com a corja de seres acabados que pululam o mundo. Há muito tempo que deixei de ver televisão. Ver televisão tornou-se-me impossível. Jamais me relacionaria, jamais apertaria a mão a qualquer um dos Durões Barroso deste mundo. O mundo está pejado de Durões Barroso. São os Durões Barroso que emperram o mundo. Esse facto faz com que o leque de indivíduos com os quais me posso ou me poderia vir a relacionar seja de uma exiguidade extrema.
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