Translate

domingo, 24 de setembro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XI - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Acabarei guardado num livro, no cimo de uma mesa onde não mais poderei transbordar.
Ainda assim: 
aguardo essa luz, incidindo de cima para baixo e de baixo para cima, descrevendo linhas entre-cruzadas, perpendiculares ao som de teu riso. Seguirei esse destino. Nele saberei desenhar-me.  Saberei seguir o curso dos rios de luz que nos entre-cruzam. 
Reservo-me a escolha das planícies onde me habitarei nas montanhas. Nelas farei fincar meu corpo para que o espírito aí transcorra. Não, nada poderia ocorrer de outra maneira. Nada poderia ter ocorrido de qualquer outra maneira. 
Saberei desenhar-me, pintar meu corpo para a guerra. 
Saberei situar-me, entre o início e o fim. Entre o início e o fim de algo que ainda não sei bem o que será. De qualquer modo, tudo farei para que me possa implodir na grandiosidade, por dentro de qualquer coisa grandiosa. 
Se não nos soubermos dirigir em direcção da plenitude nada terá valido a pena. Não terá valido a pena termos dado sequer um passo, um passo que seja. É essa a única verdade que necessito saber. Isso e o nojo pela mesquinhez que nos habita os corações. Esta estúpida normalidade, vingando como se fosse a única possibilidade. 
Naquilo que me concerne, estarei disponível para ir até ao esgotamento do possível. Somente quando todas as possibilidades estiverem esgotadas me deixarei abater.
Serei então guardado num livro, no cimo de uma mesa onde não mais poderei transbordar. 

Habitarei minhas cinzas e minhas cinzas habitarão a plenitude do universo. 


Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

1 comentário: