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domingo, 3 de junho de 2018

Desertos - XLIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Digamos que os sonhos de apagam, que se vão tornando cada vez mais ténues. No início dão-se com uma força tal que nos empurram à acção. Depois, é a acção que nos empurra. Deixamo-nos ficar colados ao mundo e colados ao mundo tornamo-nos horizontais. A verticalidade dilui-se com o tempo. Damos por nós sendo quem jamais quisemos ser. 
O mundo ocorre-nos como uma beleza hostil. Nós ocorremos com o mundo. Somos qualquer coisa transcorrendo entre a bestialidade e o divino. 
E.
Há imagens que nos espelham melhor que o nosso olhar no espelho. O abandono. Quando a manhã ocorre o mundo torna-se tarde. Como rios desaguando as encostas de uma qualquer lixeira, somos levados na enxurrada. O primeiro a chegar sente-se mais alto, mais próximo da afirmação. Aí chegados, perdemo-nos na obesidade mórbida.  
Deixamos para trás as incertezas. 
Deveríamos manter sempre uma distância segura relativamente à estupidez. Até porque, qualquer travagem do veiculo da frente nos trará a colisão. Subtraímo-nos ao que poderíamos ter sido e esse é o pior retrocesso. Rondamos o abismo cheios de certezas até cairmos de bruços sobre o nosso próprio vomitado.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho


Útero - XIX - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Entre uma casa e outra há o ofício do barro. Como um espelho, o húmus germinando até à ausência do solo. Nas cavernas descobrimos abrigo. Depois, desde a lonjura do verbo até ao lugar onde existimos, distamos alguns milímetros do fogo. 
A determinada altura há uma cisão. 
Nas sombras alcançamos a parecença das imagens. Como tochas acesas sinalizando a luz, nelas ardemos até à incompreensão. 
Tocadas em tons dóricos as escalas do fogo indiciam-me o caminho, os lugares inóspitos onde os homens não passam. Sigo as imagens, o intacto silêncio das pedras. Será aí que transpareceremos. 
É  necessário chafurdarmos no lodo para sabermos de onde provimos. 
Aguardemos pois a água e a lama, todos os lugares desabitados. Transcorrendo o rio Jordão,  desde o lugar onde se desce até ao desaguar no mar morto, há um mundo de permeio. 
Entre a água e a lama ocorrerá a vida, a tentação da queda, tão grande quanto a vontade de nela sucumbirmos. 
Que o desejo cresça tanto que nos tornemos Dioniso - as formas do vinho, o furor da paixão.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho



quarta-feira, 30 de maio de 2018

Desertos - XLII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Alguns lugares são inclinados, descem até às raízes das árvores. Apontados ao centro da terra, aí nos olharemos pela primeira vez. Despidos de roupas somos assim: pedaços de carne, diluídos até à putrefação. 
Abandonámos os quartos vazios, deixámos as salas plenas de insectos. Dirigimo-nos depois para longe. 
Alguns quilómetros antes do fim julgamo-nos perto de vencer o mundo. Basta contudo breves segundos para que tudo se desvaneça. 
Ainda assim, é importante o modo como nos damos à morte. 
Vamos sendo arquivados no fluxo das coisas, será nesse fluxo que ocorrerá nosso rasto. As direcções são múltiplas e, há escolhas que não têm retorno. O horizonte é longo e curvilíneo. Desse facto se infere a impossibilidade do voo. Boca a boca acendemos pequenos luzeiros. Como morcegos, irrompemos as cavernas guiados pelos ecos emitidos. Assim vamos caindo até rasarmos a descrença. 
Tornamo-nos voláteis. Voláteis e inúteis. Não há como evitarmos a perda das asas. Mesmo que a madrugada ocorra não deixaremos nunca de vagar na sombra do que fomos.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

sábado, 26 de maio de 2018

Desertos - XLI - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



O tédio invade-me, irrompe por dentro das casas. Depois, em longos tragos, a inundação desapropria-me das várias dependências. Todas excepto uma. Aquela que comigo formará uma necessidade básica: o solipsismo, a pre-condição para que a existência ocorra.  
Os nossos passos tropeçam o chão e, além do mais, deus recusa o comércio dos homens. Essas são as duas condições que nos revelam quem somos. Ocupamo-nos de coisas supérfluas, nada que esteja directamente adstrito à noção de peso. Ainda assim, acedemos ao peso por via indirecta. Após o tropeço rasamos o chão. Somente então são nossos focinhos guiados para a assimilação das profundezas. Antes da queda o solo é uma realidade indescernível. Somente na queda o mundo nos dança.     
“A angústia faz-nos dançar!” - terá dito o Mestre.
Entretanto, haverá que aguardar o último instante antes que a loucura se instale. Enquanto isso, percorramos o percurso das sombras, brindemos o amor e o ódio, todas as artes perigosas em demasia. 
“Com as pedras afiadas dentro dos bolsos desafio-vos para o exercício da queda!” - terá ainda dito o Mestre.  
Então sim, estaremos aptos para ouvir-nos os ossos, o trote ascendente do cavalo de Turim.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Desertos - XL - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Fornicando o dilúvio, Jocasta levita os espasmos até que Édipo perca a visão. Antígona permanece emparedada entre os meus olhos. Sigo o mesmo caminho de sempre, percorro-me até à densificação do solo. A paisagem intensifica-se e, como se nada fosse, as paredes ruem. Após haverem ruído tudo fica a descoberto; a loucura, inclusive. Da vulva da viúva de Laio irrompeu o trágico desmando, os longos frutos do incesto. 
Toda a sorte me abandonou com excepção de Antígona, minha filha. Somente Antígona não me abandonou ainda. Foram curtos os meus dotes de pai e ainda assim sou bafejado no amor filial. Expulso de Tebas por meus próprios filhos, vago agora o que de mim resta, meu próprio exílio no rio dos mortos. 
Tal qual a paz, a guerra não conduz a lugar algum. Polinice e Etéocles, meus filhos, morrerão na cobiça, e na cobiça darão meu trono a Creonte. Somente Antígona permanecerá no amor. Perante o insepulto cadáver de Polinice se reerguerá a sua dor. Contrária à proibição imposta por Creonte, pois que quem sem os rituais fúnebres morresse condenado seria a vagar as margens do rio que conduz ao mundo dos mortos, sem poder jamais alcançar o outro lado. Com suas próprias mãos, Antígona enterra seu infeliz irmão. Ao enterrá-lo se enterra em sua própria morte. 

Emparedada entre meus olhos, assim Antígona permanece. Desde agora, para sempre.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 8 de abril de 2018

Tale of a man who whispered to the flowers - XXXVI - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



A madrugada repete-se, indefinidamente. A clareza das manhãs contrasta com a estranheza da realidade e assim nos tornamos cercados na melancolia. A cada madrugada julgamos ter acertado o mundo. Olhamos o branco como um indicio de clareza, esquecendo que também o branco se escurece. Depois, a noite percorre-nos até que o brilho nos ofusque, e quando o brilho nos ofusca tendemos a cerrar os olhos. 
As qualidades secundárias não explicam o ser do mundo. Mesmo que pudéssemos pintar a realidade de cores distintas tudo se manteria o mesmo. A demíurgia apenas nos toca uma única vez. Após o acto de Criação tudo se repetirá do mesmo modo, para sempre. 
Então, cegos de exterioridade, tendemos a olhar para dentro. Olhamos para dentro e continuamos ausentes de sentido.
Somos em hecatombe, o bem e o mal derivando-nos em todos os caminhos.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 1 de abril de 2018

Tale of a man who whispered to the flowers - XXXV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Rasgamos os dedos na colheita das flores e depois os espinhos acompanham-nos para sempre. A estultícia propaga-se, como um veneno. De tal modo que não há qualquer limite para o mal que causamos. Atraídos pela força da gravidade, ruminamos o chão até nos tornarmos infectos. E não, não há luz que nos ilumine. Há uma porta que se abre e depois se fecha para sempre.
Partimos às cegas por dentro do labirinto; depois andamos às voltas uma vida inteira. 
Procuramos pistas, indícios de um brilho que nos indique o lugar onde devemos permanecer.  Por vezes julgamos que sim, que encontrámos o tal brilho. Quando assim é, corremos como loucos  na direcção apontada. Acho que somos seres de vislumbres, uns mais outros menos. De quando em vez vislumbramos uma qualquer ilusão, um breve brilho reflectido no interior da caverna. Na ânsia de nos acendermos corremos então desalmadamente. 
Sim, os cavalos também se abatem. 
Temos a cenoura em frente dos nossos narizes e é a cenoura que nos guia os passos. Há quem pise. Há quem seja espezinhado. Por vezes as posições mudam. Os espezinhados gastam toda a sua energia tentando mudar de posição. Os que espezinham tentam manter-se assim, a todo o custo. Meras crianças brincando no escuro, é nesta amálgama de “não se sabe bem o quê” que desperdiçamos as nossas vidas.
Deveríamos ser criadores de mundos, ao invés de sermos crianças brincando na escuridão. A energia, somente a energia pode fazer brilhar o escuro.
Deus disse: “ faça-se a luz!” e a luz foi feita.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho