Translate

domingo, 3 de junho de 2018

Útero - XIX - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Entre uma casa e outra há o ofício do barro. Como um espelho, o húmus germinando até à ausência do solo. Nas cavernas descobrimos abrigo. Depois, desde a lonjura do verbo até ao lugar onde existimos, distamos alguns milímetros do fogo. 
A determinada altura há uma cisão. 
Nas sombras alcançamos a parecença das imagens. Como tochas acesas sinalizando a luz, nelas ardemos até à incompreensão. 
Tocadas em tons dóricos as escalas do fogo indiciam-me o caminho, os lugares inóspitos onde os homens não passam. Sigo as imagens, o intacto silêncio das pedras. Será aí que transpareceremos. 
É  necessário chafurdarmos no lodo para sabermos de onde provimos. 
Aguardemos pois a água e a lama, todos os lugares desabitados. Transcorrendo o rio Jordão,  desde o lugar onde se desce até ao desaguar no mar morto, há um mundo de permeio. 
Entre a água e a lama ocorrerá a vida, a tentação da queda, tão grande quanto a vontade de nela sucumbirmos. 
Que o desejo cresça tanto que nos tornemos Dioniso - as formas do vinho, o furor da paixão.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho



1 comentário: