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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Excerto de "Vácuo..." - Rui Carvalho

A adversidade. A adversidade é-nos relatada na experimentação do corpo. A experiência do corpo invoca-nos a materialidade do mundo. Enquanto coisa extensa, o mundo oferece-nos resistência. Somos seres de desejo, e a nossa existência enquanto seres de desejo está circunscrita, em primeira instância, pelo plano da materialidade. O mundo é uma realidade extensa. Extensa e espessa. Tal qual o humano. Somos vibrados na conquista e no seu correlato, a perda. A espessura do mundo é-nos relatada na experimentação da perda. Somos como crianças a perder objectos. Enquanto somos crianças a perder objectos o mundo não é ainda matéria. O mundo não é ainda material. O mundo é um lugar de recreio. 
Estamos no jardim de infância. 
Na infância já temos adquirida a noção de posse. No entanto, ainda não respiramos a vicissitude. Na infância somos defronte uma miriade de jogos. Jogamos. Na infância ainda jogamos. Somos os donos do jogo. Somos miúdos. Enquanto somos miúdos somos donos das muitas bolas. São milhentas as possibilidades. As bolas furam. As bolas furam, mas há ainda mais bolas. Bolas e mais bolas. As bolas furam e ficamos ressentidos com aquele que as furou. Os berlindes são perdidos ou roubados. Os berlindes são perdidos ou roubados por quem tem o abafador. O nosso ressentimento é para com o dono do abafador. 
“Nunca mais sou teu amigo!”. Está dito. 
Está dito, mas amanhã tudo é outra coisa. 
As crianças renascem. As crianças renascem com as manhãs. 
Com o tempo perdemos o dom de renascer com as manhãs. Jamais renascemos. Jamais renasceremos. Somos a perder. Tudo perdemos. A espessura do mundo abate-se sobre as nossas existências. Somos soterrados no interior de uma série infinita de impossibilidades. Já não há manhãs. A partir de determinada altura as manhãs deixam de existir. Somos os dias, antes ainda da descoberta da noite. Os dias são os dias. Os dias são os doze trabalhos de Héracles. Temos de viver os doze trabalhos. Os doze trabalhos de Héracles. Os doze trabalhos de Héracles são sobrevindos. Quando os doze trabalhos de Héracles são sobrevindos estamos perante o vencedor. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A kind of poetry - por Rui Carvalho

Aqui era a puberdade.

Aqui era a puberdade,
o breve lugar 
                      onde as ruas desertas dos subúrbios 
                      nos irromperiam os domingos à tarde,

onde todo o desejo seria visceral,
visceralmente transcrito na musicalidade
                                                                   onde nos esperávamos.

Aqui,
         aqui era o lugar,
                                     o breve lugar onde imunes aos dias nos julgámos.

A primeira ejaculaçäo,
                                     o primeiro amor precoce
                                     aqui aconteceu.

Aqui eram as fundamentais mudanças.
                                                              
O crescimento,
                         o inevitável crescimento
                         aqui se deu.

Repentinamente
                             algo mudou,
                                                 repentinamente o vazio se fez,
                                                 e no vazio nos tornámos outros.

Pai, porque me abandonaste? 

                                                   Porque me embriagaste 
                                                   no gáudio
                                                                    das breves batalhas vencidas
                                                                    e depois abandonaste meu corpo?

Porque me deixaste só
                                      aguardando as lanças, 
                                      esperando a carnificina?

Porque me expulsaste dos lugares paradisíacos 
                                                                              onde me habitava na novidade?

Porque não me permitiste vencer
                                                       a guerra contra o corpo?
                                        
Jesus, 

           Teu filho


                           sucumbindo na derrota!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Summer series, n.º 4 - by Steven Space


Excerto do inédito "We stand!" - Rui Carvalho

 A ganância.

Ao meu lado há gente que morre. Há gente que morre destituída de ganância. Ao meu lado há gente que morre destituída de ganância. Onde a terão deixado? Onde a terão perdido? Onde terá toda esta gente deixado toda a sua ganância? Onde terão perdido o seu desejo de reconhecimento? Aqui. Aqui há gente que luta contra a morte. Aqui. Ao meu lado há gente que lutando contra a morte terá encontrado a essência da vida. Ao meu lado há gente que descobriu a essência da vida. Lutando contra a morte. Ao meu lado, os enfermos. Os enfermos vislumbrando a essência da vida. Ao meu lado os enfermos encontraram a essência da vida. Alcançaram por fim a essência da vida. A luta contra a morte. A essência da vida. Não a luta contra os outros. Não a luta para suplantar os outros. Não a continua luta para deixar os outros lá atrás. Bem lá atrás. A ganância. A ganância morrendo. Todos os dias. Ao meu lado há gente morrendo. Destituída de ganância. Dia a dia. Os enfermos morrem. Consigo ouvir seus corações implodindo. A cada segundo. A cada segundo há corações implodindo. Eu não me mexo. Mantenho-me seguro. Preciso manter-me seguro. 

O aneurisma. 

Não esquecer o aneurisma. Como posso mexer-me? Não me mexo. Não te mexas. Nem por um segundo. Não te mexas. Oiço. O desejo. Refreia o teu desejo. Refreio o meu desejo. Cumpro as regras. 
A sobrevivência. 
A minha sobrevivência. Nem um dedo. Não mexo nem um dedo. O desejo de reconhecimento. Não quero ser reconhecido. Nem um milímetro. Nem um milímetro de reconhecimento. 

A luta. A vontade de luta. 
O poder. A vontade de poder. 

A minha vontade de poder encontrou o seu foco. Por fim. Luto contra a morte. A cada segundo. A cada segundo, as contrações musculares. Os músculos implodindo. Eu implodindo. A cada segundo. 


Não é possível extirpar a ganância do coração dos homens, mas é possível extirpar os homens abjectamente gananciosos do coração do mundo.