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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Útero - I - Fotografia: Sonia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Desconhecemos a mecânica da cor, a quantidade de Sombra e Luz que permita o equilíbrio da realidade. O percurso cromático do mundo é uma condição abrangente, vai do máximo brilho à intensa penumbra. Tal facto depõe-nos perante a dificuldade extrema de nos sopesarmos. Tal qual o mundo, todos somos capazes do melhor e do pior, e, assim sendo, o equilíbrio seria pois qualquer coisa entre o bem e o mal. Ou isso, ou uma espécie de síntese dialéctica que nos possibilitasse ser uma qualquer outra coisa que não isto, qualquer coisa mais longe que esta carne e ossos por dentro da pele. 
É contudo por demais evidente sermos necessitados de cura. Uma cura radical, diria.
Em tempos idos, o sangramento da carne foi um meio de purga. Através do sangramento julgava-se poder curar o humano dos fluidos causadores das doenças do corpo e da alma. Qualquer coisa como uma tentativa de fazer igualar os humores e imiscuir-nos assim no equilíbrio. Deste modo, o equilíbrio quantitativo dos humores garantiria a aquisição qualitativa do bem estar.  
Também a realidade é qualquer coisa como sangue fluindo, sangue venoso e sangue arterial, chamemos-lhe assim. Seria então necessário que nossos olhos fossem aptos ao sangramento das paisagens, que desse modo as mesmas fossem vistas como devem ser vistas. Deveríamos ser aptos ao vislumbre do umbigo do mundo, esse estranho lugar onde os humores se equilibram. Ora, atingir esse feito implicaria um intenso treino na febrilidade. Deveríamos tornarmo-nos tão febris quanto a lava dos vulcões. Tornarmo-nos assim aptos à contemplação directa do sol, a cicatriz de onde o sentido brota.
O umbigo do mundo, o intenso lugar que nos prescreve a quantidade de Luz e de Sombra necessárias ao equilíbrio das coisas.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

1 comentário:

  1. Excelente texto ilustrado igualmente por uma belíssima imagem, bravo 👏🏼

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