Erigimos esta imensa prisão a céu aberto e escondemo-nos por detrás das grades. Seria expectável termos deixado os banqueiros de cabeça para baixo, enterrados no lodo até ao tutano. Mas, não. Os mais vis seres habitando este solo usufruem total liberdade no exercício da perfídia.
Há uma lei a que chamamos lei da causalidade. É essa a mais poderosa das leis. Não as leis dos códigos. Códigos penais, códigos civis. Os códigos e as leis que os códigos ditam. Raios partam as leis dos códigos e o que elas permitem: que a riqueza fuja sempre para lugares paradisíacos.
Fosse eu um Cínico (um Cínico Grego, tal qual se deve ser) dir-vos-ia: a estupidez tem consequências, meus Amigos. Melhor dizendo: “Se não A, então não B”.
Não fossemos abstrusamente estúpidos estariam os banqueiros presos e exerceria-mo-nos nós na liberdade. Dito de outro modo, a lucidez seria um requisito necessário à prossecução da alguma justiça. Sim, a alguma justiça, não a justiça total, a qual implicaria a erosão do mal. O mal, que tão só é uma condição natural do mundo. Sem o mal não existiria o bem, e, sem bem nem mal seriamos no âmbito do angelical. Há contudo mínimos exigidos para que o humano se exerça na decência e esses mínimos nunca foram cumpridos.
Foi coisa pouca Jesus. Jesus e a expulsão dos vendilhões do Templo. Os vendilhões sabem muito bem como auto-multiplicar-se, a eles e ao comércio do engano.
Acontece que deveríamos ser aptos a estabelecer não apenas a correlação significativa entre a razão da pobreza e a pobreza em concreto, mas essencialmente os reais mecanismos que permitem a perfídia, isto é, deveríamos ser certos que apenas a ausência de A poderá inibir a ocorrência de B. Não é suficiente sabermos tão só a razão lógica de um determinado fenómeno, seria essencial perscrutarmos, apreendermos a sua inteligibilidade.
Em suma:
Não é possível extirpar a ganância do coração dos homens, mas é possível extirpar os homens abjectamente gananciosos do coração do mundo.
Claro está, não fossemos estultos como pedras.
Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

Notável
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