Haverá sempre alguém que corre em contramão, alguém que deteste a finitude e detestando a finitude dure todo o tempo a apreende-la.
De qualquer modo, a luminosidade dos túneis por onde o sangue passa é pelo menos tão intensa quanto isto.
Apressamo-nos na fuga àquilo que somos, um desastre tão simbólico quanto o desrespeito pelos sinais vermelhos. Podemos sempre escapar-nos às multas por excesso de velocidade, mas jamais ao sangue que nos corre por dentro das veias. A determinada altura a pressão será tão intensa que a alma rebentar-nos-á por dentro das vísceras.
É para isso que me preparo. Para saber cumprir a morte. Ouvi-la chegar de raspão, essa fracção de segundo que é tudo que somos.
Pouca coisa resta dos lençóis de água onde um dia vibrámos os sonhos, pouco mais que a precoce necessidade de seguir em frente. Ouvir o sinal de alerta e ainda assim prosseguir a marcha.
Depois do sinal de aviso virá o trajecto do comboio. Ninguém esperará mim. Nem o comboio deixará de seguir seu destino, nem eu darei a mão a quem não quero.
Não me restarão mais estações nem apeadeiros, tão só este precipício sem fim.
Esta coisa tramada a que chamamos Vida.
Haverá sempre quem morra em contramão, alguém que deteste a finitude e detestando a finitude dure todo o tempo a apreende-la.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Muito bom
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