São as máscaras que usamos que suportam o peso de sermos quem somos. Contudo, tarde ou cedo teremos que haver-nos com a crueza dos factos. A luz da noite irromper-nos-á os dias e as máscaras cair-nos-ão no desassombro. Saberemos então que nada resiste à temperatura do fogo, nem os homens de fatos de amianto retorcendo o aço, nem as mulheres que em casa os esperam com filhos de colo nos braços.
Somos mais ou menos dúcteis, é certo. Diferimos quanto ao grau de deformação que nos é possível suportar, pelo menos até ao momento da queda; esse incurável precipício onde todos nos devastaremos. Atingida a temperatura de fusão os átomos dispõem-se de modo que a estrutura atómica irradie a possibilidade de deslizamento. Os átomos deslizam então uns sobre os outros, permitindo assim o estiramento da matéria. Há pois quem seja apto a estirar-se sem romper-se, a transformar-se na ténue espessura desde onde o espirito transcorre.
Outros há que jamais se estiram, e, assim se gerem na necessidade dos muitos: revestir-se no incombustível asbesto, adquirir-se na estúpida pretensão de resistir ao incomensurável arbítrio do fogo.
Contudo, as máscaras usadas apenas podem permitir-nos escapar à intensidade das chamas, jamais à asbestose, às incuráveis lesões do tecido pulmonar causadas pelo ácido exalado no interior do organismo. Esgotada pois a tentativa de dissolver as mortais fibras que nos jazem, as lesões tornar-se-ão tão extensas que nos impossibilitarão o funcionamento dos pulmões.
Aguardemos então o período de incubação, a latência da doença. Aguardemos cerca de 30/40 anos:
A fragilidade no rasgo, o instante da ruptura.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho
Belíssimo texto ilustrado igualmente por uma belíssima imagem
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