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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Útero - XIV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Necessitaríamos superarmo-nos, tornar-nos outros a cada instante. Rodar em círculos até à previsão do mágico toque dos druidas. Contudo, somos esquecidos da magia das coisas. Teimamos em apegar-nos às vicissitudes, a toda esta estupidez. Deixamo-nos cercar pelo mundo até que o mundo nos seque. 
Percorri a lonjura dos trilhos para me distanciar do medo, escondi-me de mim mesmo até tornar-me toda esta inanidade. É muito mais fácil habitarmos o cerne da distração. Sentarmo-nos à mesa e dizermos tudo o que não importa.  
Pois é, somos esta gente vaga que se mina na perfídia. Fogos fátuos, pouco mais que fogos fátuos; ardendo na imensidão deste deserto.
Um dia habitarei os relevos da paisagem, crescerei junto às ervas. Com as ervas atingirei o norte dos meus sonhos. Habitei então alturas descabidas, lugares onde é proibida a permanência. 

Sim, somos tiros no escuro. E não, não há vitórias antecipadas.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

1 comentário:

  1. Que maravilha Rui! Sobretudo esta frase: "...atingirei o Norte dos meus sonhos" gosto muito, e igualmente a imagem que o ilustra, bravo!

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