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sábado, 25 de novembro de 2017

Breve tratado acerca da arte de jardinar

O eco da vitória é igualzinho ao estrondo da derrota. Bom, com uma ligeirissíma diferença. O primeiro é efémero, o segundo dura para sempre.

Rui Carvalho, s. d.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Útero - XV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Há uma estranha gente crescendo com o que resta do mundo, erguendo nos ombros a proximidade do fogo. Comigo procuro uma matéria terrifica. O perplexo olhar dos espelhos, qualquer sopro rondando-me o susto. Não somos outra coisa que não esta névoa gravitando a orla das coisas, os passos perdidos de quem ainda nada entendeu. 
Deve ser mesmo assim. Tudo começa nesta necessidade de praticar o espanto. Depois há pássaros que voam e outros que não. E nós, que não somos pássaros e queremos voar…
Em tempos prendi-me em tuas asas. Devo ter voado perto de Ícaro, pelo menos a julgar pelo som, pela incandescente matéria rondando-me o corpo. Nossas vozes devem ter rasado a melodia do mundo. Sim, devemos ter sido por um triz. 
Contudo, após rasarmos o fogo tornamo-nos outros. É inevitável que assim seja. Que alonguemos os passos até não sabermos onde é o lugar da perda de pé.  
Deve ser mesmo assim, rasamos a melodia das coisas para depois nos perdermos no acicatar das desarmonias. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XI - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho


A realidade gera-se na constante luta dos opostos, e a isso se deve o facto de estarmos desde logo condenados a singrar no absurdo. Mesmo que nos fosse possível correr o mundo de trás para a frente, em nada se alteraria a sequência das nossas vidas. Tal qual um corredor de barreiras na inversão da corrida, seriam exactamente os mesmos os obstáculos onde cairíamos. 
É isto: somente  sabendo quem somos seremos aptos a saber aquilo de que somos capazes.
Adquiri a sabedoria das coisas, a evidência que o mundo se restringe a isto. Qualquer coisa entre a profunda tristeza e a mais intensa alegria. 
Ou vice-versa. 
Sim, somos nós o mito de Sísifo; aqueles que transportam a intensa alegria da pedra que nos coube. 

Eis-nos a consciência da queda, Camus, meu Irmão. 


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Útero - XIV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Necessitaríamos superarmo-nos, tornar-nos outros a cada instante. Rodar em círculos até à previsão do mágico toque dos druidas. Contudo, somos esquecidos da magia das coisas. Teimamos em apegar-nos às vicissitudes, a toda esta estupidez. Deixamo-nos cercar pelo mundo até que o mundo nos seque. 
Percorri a lonjura dos trilhos para me distanciar do medo, escondi-me de mim mesmo até tornar-me toda esta inanidade. É muito mais fácil habitarmos o cerne da distração. Sentarmo-nos à mesa e dizermos tudo o que não importa.  
Pois é, somos esta gente vaga que se mina na perfídia. Fogos fátuos, pouco mais que fogos fátuos; ardendo na imensidão deste deserto.
Um dia habitarei os relevos da paisagem, crescerei junto às ervas. Com as ervas atingirei o norte dos meus sonhos. Habitei então alturas descabidas, lugares onde é proibida a permanência. 

Sim, somos tiros no escuro. E não, não há vitórias antecipadas.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho