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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Útero - XVIII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



A cal das paredes oculta uma terrifica verdade - Antígona - emparedada entre o amor e o sacrifício. 
Contudo, nada de preocupações. Sejamos cegos para o visível. Vejamos apenas a superficialidade das coisas. Talvez desse modo fiquemos a salvo do temor. 
Ainda assim, os cigarros fumados revelam-nos um tique neurótico.
Ah, mas deve haver qualquer coisa. Deve existir qualquer coisa dentro das paredes e é essa qualquer outra coisa que nos assusta. 
Restar. É esse o exacto e terno verbo que nos define. Somos a restar. Há gente que se resta, que dura séculos, milénios. Há gente que se gasta no perpetuar da sua infância. 
E.
De qualquer modo, haverá mulheres bonitas inalando o meu cheiro e só isso poderá já justificar uma vida; e uma morte também.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho




sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sobre toda a escuridão - XIV - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



A vitória da luz sobre a escuridão é uma ambição que nos dura desde sempre. A invencibilidade do fogo, esse ardil de Prometeu. Após adquirimos o poder do fogo julgámo-nos invencíveis. Desejamos que a realidade brilhe, deve ser isso. Desejamos tanto que a realidade se cinja ao fenómeno do brilho que tudo parece brilhar. Somos contudo idênticos à linha do equador; e isso significa que em nós não há solstícios. Doze horas de luz e doze horas de escuridão - eis tudo o que somos.
Sim, todas as nossas vitórias se fundam em meras ilusões. Tendemos para olhar a realidade tal qual pretendíamos que ela fosse. É aí que reside a nossa ilusão.

Doze horas de luz e doze horas de escuridão. 

Em nós, em nós não há solstícios.


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho